Itabaiana/SE

O Papa não é adversário político: por que a Igreja tem o dever de falar sobre a paz – Coluna Justa Causa

Por Jhônatas Lima – Advogado

Nos últimos dias, o mundo acompanhou, com espanto, uma cena que poucos imaginavam presenciar: o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, atacando publicamente o Papa Leão XIV com palavras duras, chamando-o de “fraco no combate ao crime”, “péssimo em política externa” e “pessoa muito liberal”. Para completar, publicou nas redes sociais uma montagem de inteligência artificial em que aparecia como se fosse Jesus Cristo — imagem que foi apagada pouco depois, com a desculpa de que se tratava de uma representação dele próprio como médico.

Mas o que motivou tanta irritação do líder mais poderoso do planeta contra o líder espiritual de mais de um bilhão de católicos?

A resposta é simples: o Papa Leão XIV fez aquilo que a Igreja sempre fez ao longo de dois mil anos de história. Pediu paz. Durante uma vigília na Basílica de São Pedro, no sábado 11 de abril de 2026, o pontífice apelou aos governantes do mundo para que contivessem toda demonstração de força e se sentassem à mesa do diálogo. O alvo do apelo, evidentemente, era a guerra no Irã, onde os Estados Unidos intervieram militarmente desde junho de 2025, bombardeando instalações nucleares iranianas.

A reação de Trump foi imediata e desproporcional. Em vez de refletir sobre o chamado à paz, preferiu atacar o mensageiro. E aqui está o ponto que merece a atenção de todos nós, cristãos ou não: o Papa não é um adversário político. Não disputa eleição, não comanda exército, não busca voto. O Papa é, antes de tudo, o Sucessor de Pedro, chamado a anunciar o Evangelho — e o Evangelho, desde sempre, é uma mensagem de paz.

São Mateus registra no Sermão da Montanha uma das mais conhecidas palavras de Jesus: “Bem-aventurados os pacificadores, porque serão chamados filhos de Deus” (Mt 5,9). Não se trata de opinião pessoal do Papa. Trata-se do coração da mensagem cristã. Quando o pontífice pede paz, ele não está fazendo política partidária: está cumprindo a missão que recebeu de Cristo. Como bem disse o arcebispo Paul Coakley, presidente da Conferência Episcopal dos Estados Unidos, “o Papa Leão não é rival de ninguém; é o Vigário de Cristo, que fala a partir da verdade do Evangelho e pela cura das almas”.

A Doutrina Social da Igreja, construída ao longo de séculos e sistematizada em documentos como a Exortação Apostólica Evangelii Gaudium, a Encíclica Fratelli Tutti e tantos outros, deixa claro que a defesa da paz não é uma opção pastoral entre outras, mas um imperativo moral. A dignidade da pessoa humana — princípio basilar dessa doutrina — é violada de forma brutal pela guerra. Cada bomba que cai destrói não apenas estruturas, mas vidas, famílias, sonhos. Crianças que perdem os pais. Mães que enterram filhos. Comunidades inteiras que desaparecem do mapa. O Papa, ao denunciar isso, não está tomando partido político: está tomando partido da humanidade.

E a resposta de Leão XIV à provocação presidencial foi exemplar em sua serenidade evangélica. Sem descer ao nível do confronto pessoal, o pontífice declarou com firmeza: “Não tenho medo do governo Trump nem de proclamar em voz alta a mensagem do Evangelho, que acredito ser o que estou aqui para fazer, o que a Igreja está aqui para fazer.” São palavras que ecoam a coragem dos profetas bíblicos, que nunca se calaram diante dos poderosos quando a justiça e a verdade estavam em jogo.

É importante que o povo entenda uma coisa: a Igreja não é de esquerda nem de direita. A Igreja é do Evangelho. Quando o Evangelho exige que se denuncie a exploração dos pobres, a Igreja denúncia. Quando o Evangelho exige que se defenda a vida desde a concepção, a Igreja defende. Quando o Evangelho exige que se peça paz em tempos de guerra, a Igreja pede. Tentar encaixar o Papa numa caixinha ideológica é não entender o que a Igreja é. É confundir a voz profética com militância partidária, o que constitui um erro grave.

Aliás, enquanto Trump disparava ataques nas redes sociais, o que o Papa estava fazendo? Visitando orfanatos, mesquitas e casas de acolhimento de idosos na Argélia, primeira etapa de uma viagem histórica de dez dias por quatro países africanos. Estava pisando na terra de Santo Agostinho, em Hipona, um dos maiores pensadores da história do cristianismo. Estava promovendo o diálogo inter-religioso entre cristãos e muçulmanos. Estava abraçando os esquecidos. Isso é o Evangelho em ação. Isso é o que a Igreja faz quando o mundo se perde em disputas de poder.

A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, em nota de apoio ao Papa, foi precisa ao afirmar que “a autoridade espiritual e moral do Papa não se orienta pela lógica do confronto político, mas pela fidelidade ao Evangelho, que continuamente eleva a voz em defesa da paz, da dignidade humana e da promoção do diálogo”. A própria primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni — uma líder conservadora, aliada tradicional de Trump —, classificou os ataques ao Papa como “inaceitáveis”, afirmando que “é direito e dever do chefe da Igreja Católica pedir paz e condenar toda forma de guerra”.

O Vaticano também publicou, no dia 14 de abril, uma carta em que Leão XIV alerta para o risco de democracias modernas resvalarem para o que chamou de “tirania majoritária” quando não estão ancoradas em valores morais. Sem citar nomes, o Papa recordou que a democracia “só se mantém saudável quando está enraizada na lei moral”. É um recado que serve para qualquer governante, de qualquer país, de qualquer orientação política.

Enquanto advogado canônico — isto é, advogado que atua perante os Tribunais da Igreja Católica —, permito-me uma observação final. O Direito Canônico, no Cânon 747 do Código de Direito Canônico, assegura à Igreja o direito e o dever de anunciar os princípios morais, inclusive os referentes à ordem social, e de emitir juízo sobre qualquer realidade humana, na medida em que o exijam os direitos fundamentais da pessoa ou a salvação das almas. Não se trata, portanto, de intromissão indevida. É missão. É vocação. É dever.

O Papa Leão XIV não precisa de ninguém para lhe dizer quando falar e quando calar. Ele responde a uma autoridade que está acima de qualquer presidente, primeiro-ministro ou rei. Responde ao Evangelho. E o Evangelho, como bem sabemos, nunca se calou diante da injustiça — nem se calará.

Que o povo de Itabaiana e de Sergipe tenha a clareza de distinguir a voz do Evangelho da gritaria política. E que tenhamos, todos nós, a coragem de estar do lado de quem pede paz num mundo que insiste em fazer guerra.

Foto: arquivo Web

Compartilhe:

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *